Escrito por Maíra Watanabe Falseti – Flamenco Brasil
Seg, 28 de Setembro de 2009

O publicitário Eduardo Teixeira de Mello, mais conhecido como Sardinha, é um ser multimídia e ‘multi’ em outras várias categorias. Artista plástico, diretor de arte, músico apaixonado pelo blues, fotógrafo e outras “cositas más”, surpreende por ter a criatividade como matéria-prima. Nesta breve entrevista, seria impossível abranger todo o seu universo, tão rico em histórias e sensações sobre a vida.
Edu Sardinha trabalhou em grandes agências de publicidade durante 15 anos. Teve a sua própria agência por quatro anos, e hoje, em sua home office, desenvolve projetos focados em internet. Seu dia a dia é trabalhar a comunicação de forma abrangente. Profissional versátil, participa desde o embrião da ideia até, em alguns casos, a criação e aprodução da trilha de um site. “Quando me pedem um site, é preciso texto, fotos, campanha, estratégia de comunicação e divulgação. Desenvolvo o projeto por completo e, para isso, preciso entender todos os funcionamentos deste processo, o que faz parte do meu trabalho. A internet é meu foco, é a mídia que mais adoro devido ao seu dinamismo”, descreve o publicitário.
A criação é o desafio que move este artista. Sardinha sempre se atualiza e busca informações e ferramentas, para descobrir como a tecnologia pode ajudar as pessoas. “Estou de olho no que acontece no mundo. Sou um ser transformador do tradicional e me emociono com tudo ao meu redor”.
Profissional moderno em harmonia com a velocidade das novidades, seus universos são imensos e numerosos. Um deles é a fotografia, que surgiu naturalmente. Herdou da família, especificamente de Marina, sua mãe. “Sempre foi um costume familiar tirar fotos. Minha mãe gastava de três a quatro rolos de filmes nas nossas férias. Eu e meus irmãos temos álbuns desde quando nascemos”, conta. A música também faz parte desta família. Junto com a mãe e o irmão, criaram uma banda chamada Mississampa Blues Band. “Minha mãe era vocalista e guitarrista, eu tocava violão e guitarra. Meu irmão tocava piano e gaita, além de cantar. Durou cinco anos e fazíamos muitos shows”, recorda o músico.
Aos 13 anos, Sardinha já fotografava. O hobby virou coisa séria e não demorou muito para dedicar-se por inteiro a um trabalho de fotografia sobre blues, sua grande paixão. Viajou para Chicago, New Orleans, para se aprofundar na música e fotografar o cenário musical, que vai virar um livro, atualmente em fase de produção, chamado “Black & Blues”.
Mas a fotografia é apenas umas de suas facetas. “Não gosto de ser especialista e nem pretendo ser nota 10 em nada, prefiro ser, modestamente, nota oito. Sou curioso, gosto de fuçar em tudo”. E continua: “A publicidade produz isso, ao permitir trabalhar com vários públicos que levam a desafios com perspectivas e formas diferentes de entender o consumidor. Ela mudou várias chaves na minha cabeça – cada trabalho é um universo que se abre e permite vivenciar novas situações. Quando comecei a trabalhar com criação e estética, adorava pensar em como poderia tirar determinada foto, enxergá-la, entendê-la e até premeditar a imagem que eu imaginava”.
A simplicidade do dia a dia é sua fonte. Costuma sonhar muito e através dos sonhos consegue muitas vezes premeditar uma situação ou ter uma grande ideia. “Agora, o meu brinquedo e desafio atual é o meu iphone. O aparelho tem uma câmera ruim, sem nenhum recurso e minha diversão é tentar fazer boas fotos, exercitar o olhar, achar um ângulo ou algo interessante nas imagens”, diz.

Flamenco: um universo dentro de vários outros

Como grande amante da música, Sardinha já tinha contato com o universo flamenco através dos seus repertórios musicais. Essa relação se intensificou e aprofundou ao se casar com a bailaora Priscila Assuar. Costuma assistir a seus shows para acompanhá-la e poder fotografá-la. Dentro desta multiplicidade de universos em que vive, o flamenco ocupa uma grande parte. “Primeiro, pelo meu envolvimento emocional com a minha esposa e, segundo, com um tipo diferente de trabalho fotográfico que eu produzo e permite o meu desenvolvimento e aprendizado, além de testar a minha criação. Adquiri uma nova maneira de fotografar, mas não de forma convencional”, descreve.
Quando está em ambientes não muito propícios para fotografar, ele acaba criando diferentes situações para desenvolver sua fotografia. Trabalha propositalmente com a velocidade mais baixa da câmera para possibilitar outras formas de movimento. Já é uma marca registrada, um olhar artístico e autoral, sempre em busca de um desafio.

Priscila Assuar clicada pelo marido, Eduardo Sardinha

“O maior atrativo neste caso é pegar o movimento que já existe e é natural. Quando tiro fotos, acompanho cada compasso da música, presto atenção no que está acontecendo e na sequência da coreografia. Às vezes, quero uma imagem na saída ou na entrada de um giro. Por isso, é legal ter o conhecimento da música e da estrutura. Com meus olhos absolutamente atentos, caço momentos para captar uma expressão do corpo e do olhar. O que envolve a foto é a emoção, é supermágico. Existe uma dramaticidade muito grande num espetáculo de flamenco, e é possível passar por vários tipos de drama. Fico emocionado quando vejo o resultado. Fisicamente cansa, saio com os olhos formigando, pois só fotografo manualmente, e não uso photoshop. A minha preocupação é a estética da imagem”, define.
Já são cinco anos fotografando espetáculos de flamenco, mas para Sardinha o maior desafio é agradar sua mulher. “É uma responsabilidade enorme mostrar o meu trabalho para ela. Tenho medo de levar abanico na cabeça. É um nível de exigência altíssimo. São lindos os movimentos, as cores, as texturas – são como pinceladas. Sempre tenho a intenção de buscar algo novo. Quando tiro uma foto, não tenho ideia do resultado final e sempre me surpreendo”, diverte-se.
Uma experiência curiosa foi o seu primeiro contato com a bata de cola. Antes de conhecer profundamente o flamenco, achava aquilo esteticamente feio, como uma coisa grande e desajeitada. Depois de fotografar um trabalho com bailaoras usando esta vestimenta, adorou. “Eu observava a bata enrolando até dar aquela ´estilingada´. Pegar o movimento da bata no ar, e prestar atenção em toda a situação que envolve aquele movimento, é maravilhoso”.
No universo flamenco, Sardinha pôde misturar trabalho e paixão. Além das fotos, já criou sites de muitos bailaores e músicos. “É um grande desafio profissional por se tratar de um só tema. Tenho o flamenco como base e sempre me questiono como as criações podem ser diferentes. Por isso, uso e procuro através da psicologia a personalidade de cada um, a essência das pessoas. Busco o material bruto para fazer o meu trabalho”, conta.

Sardinha e o Sardaquinho

Autodidata, a música sempre fez parte da sua vida. Aprendeu os primeiros acordes e estruturas do blues com a sua mãe. Gosta de brincar de fazer sons. Seu escritório é cheio de instrumentos, peculiaridades e histórias. Até criou um instrumento totalmente rudimentar chamado Sardaquinho. “Criei a partir do cavaquinho, porém, com apenas duas cordas oitavadas. É um instrumento minimalista para ser tocado com slide (cilindro de metal)”, descreve. Abaixo, duas músicas tocadas no Sardaquinho.

Funquinho

Dust my blues

Pela primeira vez na vida, Sardinha resolveu fazer aula de música. Está aprendendo a tocar cajón com o músico Luciano Khatib. Ele tem pressa, quer tocar logo o instrumento, mas ainda se sente como um bebê engatinhando. Para ele, é uma experiência diferente estar numa sala de aula. “É gostoso ter uma turma. Sempre aprendi a tocar na base da tentativa e erro. Agora estou aprendendo a técnica. É sensacional porque aprendo a base da música, o que é a divisão dos tempos e aprendo a contar, além de ter muita disciplina. É um instrumento perfeito, que possui muita versatilidade”, conta animado. Como em todos os seus universos, sua dedicação é intensa. Ele grava as aulas, assiste e faz tudo de novo em casa.

Empolgado, às vezes tenta ajudar sua esposa a estudar. “A Pri estava estudando uma coreografia e me chamou para tocar cajón. Na terceira vez em que errei o compasso, ela me mandou embora. Eu iria acertar na quarta, estava perto. Mas ela queria passar uma coreografia inteira no contratempo. Às vezes, quase consigo identificar uma siguiriya, mas a Pri sempre me corrige”, diverte-se.

Um momento especial foi quando aceitou o convite da bailaora Ale Kalaf para participar como músico de uma apresentação do seu estúdio. “Foi um solo, uma fusão de blues com flamenco. Foi surreal. Fazia 15 anos que eu não fazia um show. Foi gostoso chegar quatro horas antes do espetáculo, passar o som, ensaiar com os músicos e ficar na coxia. Eu tinha ensaiado apenas duas vezes aquela música. Muita adrenalina! Quando comecei a tocar, entrei em outra esfera. Era uma conversa entre o sapateado da Ale e as cordas do meu violão, sonoridades muito diferentes. Era uma melodia nova pra mim, fiquei feliz da vida!”, finaliza.

Matéria publicada no Flamenco Brasil.
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